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Trinta por uma linha

Trinta por uma linha

Por que te quero?

11.04.19 | António Mota

De hoje em diante, semanalmente, dou-vos a conhecer um pouquinho da minha estória, um romance em que tenho vindo a trabalhar há algum tempo e que decidi começar agora a partilhar. Espero que seja do vosso agrado.

Capítulo I 

Laura

Parte I

Dizem que é o amor que nos procura, que nos escolhe e que por mais que o tentemos encontrar, por muito que nos esforcemos a descobrir o seu rasto, nada mais encontraremos que expectativas defraudadas e desilusões mais ou menos esperadas. O amor, dizem, tem vontade própria e, por isso, decide o momento, os intervenientes e o desfecho de cada uma das suas histórias. Aqueles que mais o procuram, os que mais o tentam descobrir são de quem ele mais foge. Quanto mais se quer amar, quanto mais se deseja encontrar o amor como um adesivo para tapar as nossas feridas, parar a nossa sangria, mais nos distanciamos dele. Dizem que o amor não se constrói, bloco sobre bloco, como se de uma casa se tratasse, nem se destrói em pedaços por mais força que se aplique. Ele nasce sem que se aperceba, cresce, amadurece e fortalece-se sem que se queira e se chega a desaparecer, foi porque nunca existiu. Por isso dizem que não vale a pena procurarmos o amor, que por muito solitários que nos sintamos, por muito fria, superficial e incompleta que a nossa existência possa parecer, não é por centrarmos os nossos esforços que o vamos descobrir, não é por juntarmos todas as partículas de energia do nosso próprio ser e enveredarmos nessa demanda em encontrar o amor, que o vamos encontrar. É, na verdade, quando assim agimos que mais o ofendemos e afastamos, sentindo o amor como se o estivéssemos a provocar ao achar que essa é a sua natureza, a de ser conquistado. É o que dizem, pelo menos.

Pensava Laura nestes assuntos enquanto esperava na fila do supermercado até que chegasse a sua vez.  Tinha vindo comprar os ingredientes necessários para fazer o jantar. Era sábado e ela tinha convidado os seus pais para virem a sua casa que ela cozinharia para eles. Laura, atualmente com 37 anos, desde cedo vivia no seu próprio apartamento. Prezava a sua independência e, logo que pôde adquirir a sua própria casa, não hesitou. Vivia num condomínio fechado, na parte mais calma da cidade. Era também a parte mais cara, mas o seu cargo de CEO numa empresa de venda online de produtos de moda que ela própria tinha criado permitia-lhe um bom nível de vida e algumas excentricidades. Outros luxos, porém, estavam fora do seu alcance. Eram esses luxos que faziam com que a sua mente fugisse para bem longe daquela fila de supermercado.